Seleção Pública de Projetos Esportivos Educacionais

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A PSICOLOGIA DO ESPORTE NA INICIAÇÃO ESPORTIVA INFANTIL

Foto: Aula de vôlei no Essa é a Nossa Praia

Esse artigo é a síntese da monografia do Curso de Especialização em Psicologia do Esporte, do Instituto Sedes Sapientiae


Letícia Macedo Gabarra

Psicóloga, Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Especialista em Psicologia do Esporte pelo Instituto Sedes Sapientiae


Kátia Rubio

Psicóloga, Doutora pela Universidade de São Paulo (USP), Professora – Organizadora da Especialização em Psicologia do Esporte do Instituto Sedes Sapientiae.


Luciana Ferreira Ângelo

Psicóloga do Instituto do Coração - INCOR, Mestre pela Universidade de São Paulo (USP), Professora – Organizadora da Especialização em Psicologia do Esporte do Instituto Sedes Sapientiae.




A PSICOLOGIA DO ESPORTE NA INICIAÇÃO ESPORTIVA INFANTIL

Resumo

A Psicologia do Esporte e da Atividade Física possui diversos campos de intervenção, como a reabilitação, alto rendimento, iniciação esportiva. Este trabalho buscou refletir sobre a atuação do psicólogo na iniciação esportiva infantil, visto a pouca literatura encontrada sobre essa possibilidade de intervenção. Para tornar a reflexão possível retomaram-se conceituações sobre o termo iniciação esportiva, considerando-a como um processo e um produto, que podem ter como finalidade o esporte recreativo, o alto rendimento e o educativo. O professor, a família e a criança foram descritos como os componentes principais deste processo, formadores da tríade principal. A partir das características da iniciação esportiva infantil e da tríade, refletiu-se sobre as possibilidades de atuação do psicólogo do esporte neste contexto. Considerando-o como mediador e facilitador das relações sociais, entendendo o esporte como um instrumento para o desenvolvimento do indivíduo, na busca da autonomia, fortalecendo sua auto-estima, proporcionando a educação e a saúde.

 Palavras chave: psicologia do esporte, iniciação esportiva, infância, tríade professor-família-criança.



PSYCHOLOGY IN CHILD SPORT INITIATION

Abstract

Sport and physical activity psychology have several intervention fields, such as rehab, self performance and sport initiation. This work intends to analyze psychologist’s actions towards child sport initiation, since there is so little literature about the possibility of intervention. For this analysis, a study was made on concepts of sport initiation, considering it a process and a product that can have recreation, education and high performance as its goal. Teacher, family and child were described as the main components of this process, which fill the main triad. Considering child sport initiation and triad characteristics, a reflection about the possibility of a sport psychologist action was made. He would be the mediator and facilitator of social relations, and use sport as an instrument for a person’s development. As a result, the person, in search for autonomy, would empower his/her self-esteem and acquire education and health.

Keywords: sport psychology, sport initiation, childhood, teacher-family-child triad.



LA PSICOLOGÍA DEL DEPORTE EN LA INICIACIÓN DEPORTIVA INFANTIL

Resumen

La Psicología del Deporte y de la Actividad Física posee diversos campos de acción, como la rehabilitación, el alto rendimiento y la iniciación deportiva. Éste trabajo ha buscado reflexionar sobre la actuación del psicólogo en la iniciación deportiva infantil debido a la poca literatura encontrada sobre esa posibilidad de acción. Para tornarla posible, fueron repensados los conceptos sobre el término iniciación deportiva, considerando ésta iniciación como un proceso o un producto que puede tener como objetivo el deporte recreativo y el educativo. El profesor, la familia y el niño fueron descriptos como los componentes principales de este proceso, como formadores de la tríada principal. A partir de las características de la iniciación deportiva infantil y de la tríada, se ha reflexionado sobre las posibilidades de la actuación del psicólogo del deporte en este contexto como un mediador y facilitador de las relaciones sociales, comprendiendo el deporte como un instrumento de desarrollo del individuo en la búsqueda de la autonomía, fortaleciendo su autoestima y proporcionando la educación y la salud.

Palabras clave: psicología del deporte, iniciación deportiva, niñez, tríada profesor-familia-niño.



1. INTRODUÇÃO  

A Psicologia do Esporte possui várias frentes de atuação, dividindo-se em educação, intervenção e pesquisa. A educação refere-se ao ensino da Psicologia do Esporte nos curso de graduação de Psicologia ou Educação Física. A área da pesquisa possui um campo amplo, que pode estar relacionado com as áreas de intervenção, auxiliando no suporte teórico da intervenção. Na área da intervenção pode-se pensar em várias formas de atuação do psicólogo, como o alto rendimento, a reabilitação, o esporte escolar, a recreação, a clínica, a iniciação esportiva. Dentro destes é possível atuar em diversos locais e momentos, como por exemplo, na reabilitação esportiva, intervindo para prevenção ou para suporte de atletas lesionados, bem como com pessoas portadoras de alguma patologia orgânica que encontre no esporte o auxílio ao tratamento (RUBIO, 2000a, 2000b; BRANDÃO, 2000; SAMUSKI, 2002).

No entanto, o trabalho do psicólogo do esporte mais divulgado pela mídia e, em geral o mais conhecido pelas pessoas, é o relacionado com o esporte de alto rendimento, remetendo à imagem do psicólogo auxiliando técnicos e atletas para o melhor desempenho. As outras formas de atuação não possuem uma imagem tão conhecida pela população e nem mesmo entre os pares de profissão. Na grande parte das vezes desconhece-se o que o psicólogo do esporte realiza também suas atuações na recreação, na reabilitação ou no esporte infantil.

Rubio (2000a) descreve que a Psicologia do Esporte no Brasil começou com atuações junto ao esporte de alto rendimento, com o psicólogo João Carvalhaes no futebol, na década de 50. Talvez esse tempo mais longo, dos anos 50 até hoje, juntamente com os interesses políticos e econômicos em relação ao esporte de alto rendimento tenham favorecido à maior visibilidade e conhecimento neste campo. Assim, as demais áreas de atuação são recentes e buscam seu espaço e sua solidificação.

Na literatura encontram-se menções sobre outras possibilidades de intervenção, como na reabilitação (CAMPOS, ROMANO e NEGRÃO, 2000; MARKUNAS, 2000) e na iniciação esportiva (MARQUES e KURODA, 2000; MARQUES, 2000, RUBIO et al, 2000). Essa literatura aponta para importância do trabalho do psicólogo e desperta interesses e inquietações sobre a abrangência da Psicologia do Esporte.

O curso de especialização em Psicologia do Esporte fornece subsídios para a reflexão deste campo, mostrando que há muito a ser pensado e estudado. Dentro destas opções para um estudo mais aprofundado e pormenorizado encontra-se a atuação psicológica junto às crianças que praticam esporte, seja nas escolas esportivas, nos projetos sociais ou nas escolas infantis.

O esporte na infância é bastante abrangente, isso pode ser verificado na amplitude de assuntos e estudos relacionados como a iniciação esportiva (MACHADO e PRESOTO, 1997; MARQUES, 2000, MARQUES e KURODA, 2000; CONTRERAS, LA TORRE e VELAZQUEZ, 2001), o esporte escolar (DURAND, 1988; BLÁZQUEZ SÁNCHEZ, 1999), o esporte competitivo (BECKER, 2000; DE ROSE JR, 2002), a especialização precoce (RUBIO ET AL, 2000), as lesões e burnout (BECKER, 2000, PERSONNE, 2001), os projetos sociais (DIAS, CRUZ e DANISH, 2000), a participação dos pais (SOUZA e SILVA, 2002), as motivações dos pais e das crianças (DURAND, 1988; BELLÓ, 1999). 

Dentro dessa complexidade esse trabalho visa refletir sobre a atuação do psicólogo do esporte na iniciação esportiva infantil, no “como” pode-se intervir nesse local, considerando os assuntos relacionados e adjacentes, sem ter a pretensão de esgotar o tema. Buscar-se-á pensar e, talvez, contribuir para o debate sobre a construção e extensão da Psicologia do Esporte no Brasil.

Para alcançar esta reflexão, serão discutidos conceitos sobre iniciação esportiva, seus objetivos e suas possibilidades, bem como o papel dos educadores neste processo, considerando como tal o professor de educação física e os pais; e também o papel da criança, observando como ela chega ao esporte e o que ela busca.



2. INICIAÇÃO ESPORTIVA INFANTIL

O foco deste trabalho serão as crianças no esporte, ou seja, a iniciação delas nesse contexto, seja este a escola, o projeto social ou a escolinha de esportes. A iniciação esportiva (IE) contém em si características importantes para o desenrolar da vida infantil no mundo esportivo e para compreender esse momento considera-se importante conhecer sua conceituação e abrangência do termo iniciação esportiva.

Na literatura autores como Blázquez Sánchez, (1999); Moreno et al, (2000); Contreras, La Torre e Velazquez, (2001) descrevem-no de maneira bastante diversa, dividindo-o em definições que consideram a IE como um o processo, outras como um produto e as mais amplas como ambas, ou seja, produto e processo.

Moreno et al (2000) definem iniciação esportiva como um processo de ensino- aprendizagem para a aquisição da capacidade de execução prática e conhecimento de um esporte, considerando este conhecimento o contato com o esporte até a capacidade de praticá-lo com adequação à sua estrutura funcional.

Blázquez Sánchez (apud MORENO et al, 2000) retira o foco da definição de IE do início da prática esportiva, ampliando para o início de uma ação pedagógica que considera as características da atividade, da criança e dos objetivos a serem alcançados. Na definição deste autor a IE possui 4 características essenciais vinculadas ao processo de ensino-aprendizagem, sendo estas:

 “un processo de socializacion, de integración de los sujetos com las obligaciones sociables respecto a los demais; ser un processo de enseñanza-aprendizaje progressivo y optimizador que tiene como intención conseguir la maxima competencia en una o varias actividades deportivas; ser un processo de adquisición de capacidades, habilidades, destrezas, conocimiento y actitudes para desenvolverse lo más eficazmente en una o varia prácticas deportivas; ser una etapa de contato y experimentación en la que se debe conseguir unas capacidades funcionales aplicadas y prácticas.” (BLÁZQUEZ SÁNCHEZ, 1999, p.24)

A propósito, Contreras, La Torre e Velazquez (2001) afirmam que a iniciação esportiva é um processo de socialização dos indivíduos, e possui implicitamente determinados valores, conhecimento, condutas, rituais e atitudes próprios do grupo social no âmbito que se realiza a iniciação. Desta forma, a iniciação não é apenas o momento de início da prática de um esporte, mas a totalidade de uma ação que envolve o processo e o produto.

Nesse sentido há um direcionamento interferindo no seu produto, decorrente de sua finalidade. Sendo assim, Sánchez Blázquez (1999) afirmará que a IE pode ser destinada para três fins: o esporte competitivo, o esporte educativo e esporte recreativo.


Esporte recreativo

O esporte recreativo conhecido, também, como esporte-participação, tem como finalidade o bem-estar dos seus participantes, realizado pelo prazer e pela diversão (TUBINO, 2001). Sánchez Blázquez (1999) coloca que o desenvolvimento da recreação surge como uma reação contra o esporte de rendimento, na busca de uma nova cultura esportiva, baseada no sentido democrático do esporte, ou seja, valorizando as possibilidades individuais de cada pessoa e descentralizando o resultado.

Segundo Tubino (2001) no Brasil o esporte recreativo seria o chamado esporte popular, ligado ao tempo livre e lazer da população, no qual as pessoas praticam por diversão, descontração e relacionamento pessoal e social. O autor acredita que este esporte possibilita o processo de democratização, promovendo a participação e oportunidades esportivas para  todos.



Esporte educativo

O esporte educativo busca colaborar para o desenvolvimento global e potencializar os valores da criança. O esporte educativo encontra-se no meio destes dois extremos, constituindo-se como uma atividade cultural, possibilitando a formação básica e contínua através do esporte (SÁNCHEZ BLÁZQUEZ, 1999). Esta possibilidade da IE busca proporcionar o desenvolvimento de atitudes motrizes e psicomotrizes em relação com os aspectos afetivos, cognitivos e sociais, respeitando os estágios de desenvolvimento humano.

Lima (apud TUBINO, 2001) coloca que a orientação educativa no esporte vincula-se a três áreas: a integração social, o desenvolvimento psicomotor e as atividades físicas educativas. Na primeira área, seria assegurado a participação autêntica, possibilitando aos educandos a oportunidade de decisões sobre a própria atividade a ser desenvolvida. No desenvolvimento psicomotor seria oferecer oportunidades para atender as necessidades de movimento, bem como desenvolvimento de habilidades críticas, como a auto avaliação. E as atividades físicas educativas englobaria a concretização das aptidões em capacidades.

Assim, considera-se o esporte educativo como um caminho para o pleno desenvolvimento da cidadania no futuro das pessoas (TUBINO, 2001). No entanto o autor ressalva que a iniciação esportiva escolar que deveria proporcionar o esporte educativo vem reproduzindo o esporte de alto rendimento, com todas as suas características perdendo o conteúdo educativo.



Esporte competitivo

O esporte competitivo ou de rendimento é a prática esportiva com a finalidade de alcançar a vitória, buscando o movimento mais correto tecnicamente, realizando muitas repetições para o aperfeiçoamento da técnica o que leva o praticante a vencer o adversário (BLÁZQUEZ SÁNCHEZ, 1999).

Essa forma de lidar com o esporte requer muito cuidado, visto que esta pode se tornar uma réplica do esporte de alto rendimento adulto, no qual a criança é tratada como um adulto em miniatura. Isso faz com que esta dimensão do esporte tenha um forte impacto social por exigir uma rede de organizações complexas, envolvendo investimentos financeiros, mesmo em se tratando de um público infantil (TUBINO, 2001).

A propósito Vargas (1999) pontua que os esportes infantis acabando se adaptando ao “esporte dos grandes” com as mesmas formas, finalidades e valores, muito embora a imensa maioria dos discursos sobre ele seja apelando para a necessidade da prática regular e da participação. Complementando, Tubino (2001, p.35) descreve que no esporte escolar realizam-se competições infantis que  “reproduzem as competições de alto rendimento, com todas as suas características, inclusive os vícios”.

Assim, a especialização precoce é apontada como um grande risco do esporte competitivo durante a iniciação esportiva infantil. A busca incessante pelo prestígio conduz professores e familiares a exporem as crianças a situações de grande exigência e tensão, de treinamentos intensivos e precoces em busca de altos rendimentos. É importante ressaltar que poucas dessas crianças que iniciam treinamentos e competições precoces alcançam a vitória e o sucesso. O que prevalece é uma maioria denominada derrotados, que irão se frustrar com os resultados, além do elevado porcentual de praticantes que acabam por desenvolver problemas de saúde e transformar o esporte em atividade laboral (BLÁZQUEZ SÁNCHEZ, 1999). A propósito Personne (2001) aponta para os riscos à saúde que certos exercícios realizados de forma repetitiva podem gerar como seqüelas de ordem locomotora, cardiovascular, endócrina, além de repercussões psíquicas. Rubio e all (2000) descrevem que a especialização esportiva na infância substitui o lúdico pela competência e a recreação torna-se competição; inserindo a criança precocemente no mundo adulto. 

Em relação aos aspectos de risco à saúde, Becker (2000) cita as lesões e o estresse, sendo que este último pode chegar a acarretar o burnout nos atletas infantis. “Burnout é uma resposta psicofisiológica exaustiva que se manifesta como um resultado de uma freqüência, muitas vezes excessiva, e geralmente com esforços ineficazes na tentativa de conciliar um excesso de treinamento com exigências da competição” (SAMULSKI, 2002, p. 349).

Apesar disso, Blázquez Sanchez (1999) aponta que o esporte competitivo também pode potencializar o desenvolvimento pessoal do indivíduo, simulando situações que todos enfrentarão no futuro. O professor pode ensinar a ganhar e a perder, esta aprendizagem pode proporcionar o desenvolvimento de habilidades pessoais enriquecedoras para a vida, como lidar com o fracasso, com a frustração, com a vitória e com o sucesso. O autor faz a ressalva que o esporte não possui nenhuma virtude mágica, não é bom, nem mal. Assim, a competição só será prejudicial ou benéfica se for direcionada para tal, dando à prática um significado distinto.



3. A TRÍADE PROFESSOR-FAMÍLIA-CRIANÇA

3.1. O papel do professor de educação física - educador

Neste processo de iniciação a postura do profissional da Educação Física é fundamental, uma vez que irá direcionar todo o processo de aprendizagem. Korsakas (2002) aponta para o fato de que o esporte não possui em si nenhuma virtude mágica, e como qualquer outra atividade pode ser utilizado para várias finalidades, dependendo da intencionalidade com que ele é ensinado e praticado. O esporte não é por si só saudável ou educativo, ele é aquilo que se fizer dele.       

Desta forma, o esporte proporciona um contexto de grande potencial educativo, podendo servir como um instrumento para o desenvolvimento de atitudes necessárias na vida social e individual da criança, como aprender a lidar com as experiências como confiança e auto-imagem, ou como um instrumento de alienação (MARQUES e KURODA, 2000; CONTRERAS, LA TORRE e VELÁZQUEZ, 2001).

A prática permanece diretamente ligada à concepção que o adulto tem sobre a criança, sobre educação e sobre esporte (KORSAKAS, 2002). Entende-se por adulto todo o grupo de pessoas próximas na vida da criança, que proporcionam a circulação de valores, como os pais, familiares, os professores na escola, o professor de educação física, enfim, todos aqueles que podem exercer o papel de educadores para a criança.

Na iniciação esportiva o professor de educação física tem uma proximidade direta com o praticante, e além de exercer o papel de educador ele também desempenha o papel de agente renovador e transformador da comunidade na qual está inserido, podendo promover uma reflexão crítica e da ação (MEDINA, 1990).

Complementando Korsakas (2002) afirma que quando a criança é considerada um sujeito que se constrói a partir de suas experiências, educar significa possibilitar situações de aprendizagem, cabendo ao adulto a condição de facilitador desse processo. Assim, não se oferece à criança a resposta pronta, mas perguntas e desafios, dando a ela possibilidade de pensar, de utilizar a sua criatividade, de desenvolver sua capacidade de resolver problemas e dificuldades, proporcionando a construção de sua autonomia, pensamento crítico e do seu papel ativo na suas experiências. 

Cabe então ao professor de educação física a função de otimizar as ações realizadas, fazendo uso de métodos e programas coerentes com o objetivo, para que desta maneira, o esporte possa se tornar um objeto e meio de educação (SÁNCHEZ, 1999). Ayats (1999) argumenta que a intencionalidade pedagógica do educador é fundamental, pois caracteriza o processo educativo, junto com a estruturação dos conteúdos, a sistematização dos métodos didáticos, as atividades, as tarefas e a evolução do processo esperado. O objetivo da atividade dentro dessa perspectiva será então o desenvolvimento e a aquisição de habilidades motoras, além de desenvolver aspectos biológicos, psicológicos e socioafetivos do aluno. 



3.2. O papel da família

Considerar o que motivou a criança a iniciar a prática esportiva é altamente relevante para planejar estratégias que facilitem a permanência e continuidade da prática. Neste sentido, a família é o ponto crucial na vida da criança, uma vez que compete a ela a decisão sobre a entrada do filho no esporte e o auxílio no momento da decisão sobre a prática.

E antes mesmo disso terá competido à família as condições para o desenvolvimento das habilidades motoras básicas da criança como engatinhar, andar, subir e descer escadas, correr, jogar bola. Será também creditada ao núcleo familiar a responsabilidade inicial e principal na aprendizagem de hábitos saudáveis e na valorização destes costumes, que vão desde a alimentação e sono, até a prática de exercícios físicos (MARQUES, 2000). Embora esses hábitos servirão de modelo para as crianças e um estímulo para a prática posterior, não se pode ter a certeza de que aqueles não tiveram o modelo do exercício físico em casa não praticarão exercícios. A prática desportiva é o resultado de um conjunto complexo de fatores, onde a influência familiar não deve ser considerada um determinante, mas sim um facilitador.

Segundo Belló (1999) o fator mais importante no momento da criança praticar esportes é a determinação dos pais. O autor coloca que em geral isso ocorre por volta dos 6 a 8 anos; já a modalidade esportiva escolhida depende das condições de horário, instalações, possibilidades econômicas, dos gostos e da moda presente, além da influência da mídia e do círculo de amizades. Nesse momento de escolhas e decisões, nem sempre o desejo e gosto da criança são considerados.

Os pais podem influenciar na opção da escolha do esporte para os seus filhos por diversos motivos, entre eles educacionais, saúde, busca de ascensão social (MARQUES e KURODA, 2000). Há casos nos quais ocorre uma recomendação médica, para auxiliar no tratamento e/ou prevenção de doenças da criança; ou também pais que associam a prática do exercício físico como algo saudável para a vida do filho (PERSONNE, 2001).

Em alguns casos a iniciação esportiva ocorre para preencher o tempo livre da criança. Becker (2000) cita que alguns pais colocam o filho na prática esportiva sem consultá-lo, informando-o apenas quando devem comparecer ao local das aulas. Nestes casos o local da iniciação esportiva aparece como um “depósito de criança” em seus tempos livres.

Em outros casos os pais procuram no esporte a ascensão social vinculando-o ao alto rendimento e a aquisição de ascensão econômica e social. Pode ocorrer nesses casos uma expectativa pelo bom desempenho da criança, gerando exigências excessivas conferindo a essa prática um caráter obrigatório (MARQUES, 2000). Há também os pais que vêem no esporte uma forma de educação, exercitando o físico e o mental da criança. Confirmando esse mito há o apoio da mídia, vinculando a idéia de educação pelo esporte sugerindo que “quem pratica esporte não usa droga”.

Becker, 2000; Weinberg e Gould (2001) e Becker e Götze (2003) mostram que os pais têm expectativas e necessidades diferentes das crianças sobre o motivo que as levam à prática esportiva. As crianças apontam a alegria, o aperfeiçoamento e aprendizagem de habilidades, a encontro com amigos e a conquista de novas amizades, sentir emoções e aquisição de forma física como os motivos para iniciar a prática esportiva. Já a continuidade da prática por crianças e jovens envolve outras razões como a necessidade de diversão, pelo gosto pela atividade esportiva e pela capacidade de proporcionar contatos sociais (BELLÓ, 1999).

Dessa forma é possível observar que a família pode ser um facilitador ou um complicador na iniciação esportiva. A condição de facilitador acontece se entender que a família a principal responsável pelo desenvolvimento inicial das habilidades motoras da criança, além de ser a facilitadora do contato com hábitos de atividade física de recreação bem como com a atividade esportiva de forma lúdica (RÚBIO et al, 2000). Porém, algumas vezes a expectativa dos pais sobre a capacidade de rendimento do filho pode ser um complicador, por gerar ansiedade e angústias na criança, na expectativa de um resultado positivo, levando ao abandono da prática esportiva.



3.3. O papel ativo da criança

A infância é um período fundamental de desenvolvimento físico, cognitivo, afetivo e social. As experiências deste período auxiliarão na formação de características e no desenvolvimento de aptidões, que repercutirão em outras fases do ciclo vital (KREBS, COPETTI e BELTRAME, 2000).    Diversos estudos apontam que a brincadeira é um aspecto comum na infância em diferentes culturas e sociedades e de grande importância no ciclo vital dos seres humanos (CAILLOIS, 1990; CARVALHO e PONTES, 2003; HUIZINGA, 1990; WINNICOTT, 1975). Nessa perspectiva Bichara (1994) e Bjorklund (1997) apontam que a brincadeira faz parte do repertório comportamental da espécie humana, seja com o uso de instrumentos – brinquedos – ou usando a imaginação. Acredita-se que a existência da brincadeira ocorre, principalmente, durante a infância e é por meio dessa linguagem, do lúdico, que a cognição das crianças se desenvolve.

Dentro dos estudos sobre etologia humana (BICHARA, 1994) é possível observar que a brincadeira é considerada como uma forma de desenvolver habilidades que irão preparar a criança para a maturidade. Dessa forma, o brincar seria uma oportunidade para a interação social, sendo esse o caminho para o desenvolvimento da criança e uma maneira de expressar a sua percepção do mundo.

Winnicott (1975, p.63) afirma que é no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação. Acredita que a brincadeira por si só é uma terapia, e entende que “a brincadeira que é universal e é própria da saúde: o brincar facilita o crescimento e, portanto a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia”.

Assim, percebe-se na brincadeira uma forma de desenvolver habilidades comportamentais e motoras, aprender habilidades úteis para a vida posterior, uma oportunidade de interação social e desenvolvimento de habilidades sociais, bem como o desenvolvimento da criatividade e da imaginação. Decorrente disso, a educação física utiliza-se da brincadeira na iniciação esportiva infantil, tornando a prática esportiva mais próxima do mundo das crianças, além de buscar o desenvolvimento motor, cognitivo, social e psíquico daquele que pratica.

A utilização do lúdico neste momento de iniciação no esporte parece ser fundamental para que a criança sinta prazer na atividade. É importante ressaltar que a motivação intrínseca para o esporte na infância é um fator preponderante para a permanência na prática, reforçando a importância do lúdico como favorecedor da motivação.

Esta é a razão da afirmação de Carvalho (1987) sobre a importância das experiências esportivas na infância no sentido da busca do prazer e da adesão livre, colocando a criança como protagonista do gesto, proporcionando a ela, e não apenas ao educador, o significado de sua ação. Essa perspectiva favorece uma atitude ativa da criança no processo da iniciação esportiva, desenvolvendo a sua autonomia, criatividade e espontaneidade, além de proporcionar desde a infância o conhecimento e apropriação do próprio corpo, das suas capacidades, da sua necessidade de cuidado.

Outro ponto a ser destacado na iniciação esportiva infantil é a possibilidade da socialização que se dá na prática das atividades físicas coletivas ou realizadas em grupos. Boixadós, Mimbrero e Cruz (1998) apontam que o ambiente social da prática esportiva pode ser muito importante na socialização das crianças, mas que os agentes de socialização – estrutura, filosofia dos programas esportivos, a família e o treinador – podem afetar diretamente a qualidade da experiência. Daí a importância da qualificação do profissional que irá atuar que essa população.

O ambiente no qual a criança está inserida exerce influência no seu desenvolvimento. A teoria ecológica desenvolvida por Bronfrenbrenner (1986, 1996) demonstra que não só o ambiente familiar é um contexto de desenvolvimento, mas também as instituições infantis. Nesta perspectiva o ambiente ecológico é formado por sistemas: microssistema, mesossistema, exossistema e macrossistema. O microssistema engloba as relações imediatas, como casa e creche. O mesossistema seria o vínculo entre os contextos que a pessoa vive, como as relações em casa e com os amigos da comunidade. O exossistema são os contextos nos quais a pessoa não participa ativamente, mas que interferem em sua vida e podem estar sendo influenciados, como o trabalho dos pais da criança. E o macrossistema contém os valores, crenças, cultura e subculturas presentes na vida das pessoas.

Krebs, Copetti e Beltrame (2000) salientam que o contexto engloba fatores como alimentação, proteção física, estímulo psíquico e cultural da criança. Nesta perspectiva, considera-se que a atividade física e o esporte sejam relevantes neste processo de desenvolvimento, visto que ocorrem nos microssistemas da criança, tais como a escola, clubes, projetos sociais, escolas de esporte.



4. REFLEXÕES SOBRE O PAPEL DO PSICÓLOGO DO ESPORTE

O contexto da iniciação esportiva infantil constitui-se numa rede complexa de relações e de possibilidades de desenvolvimento, como foi apresentado nos itens acima, suscitando questões como: qual é o papel do psicólogo do esporte na iniciação esportiva infantil? Nesta tríade professor-família-criança qual seria a atuação do psicólogo do esporte? Essas questões permeiam a reflexão a respeito da diferença entre um psicólogo do esporte e outro psicólogo neste contexto.

Para buscar respostas para todas essas dúvidas, necessita-se pensar no olhar do psicólogo do esporte e o que o diferencia dos demais profissionais da área da psicologia, bem como a forma que esse olhar pode contribuir na IE infantil. O psicólogo do esporte entende o esporte como um instrumento que pode ser utilizado na busca de autonomia dos indivíduos, na transmissão de educação, na manutenção ou no alcance da saúde, no desenvolvimento da auto-estima. Essa forma de compreender o esporte pode auxiliar no desenvolvimento das crianças na iniciação esportiva, ocupando o lugar de mediador das relações da tríade, professor-família-criança, ou seja, buscando facilitar as relações, realizando um trabalho interdisciplinar com os professores de educação física, aproximando a família deste contexto de desenvolvimento infantil, auxiliando na compreensão das necessidades da criança, proporcionando a esta mais autonomia e conhecimento sobre si mesmo.

Desta forma, acredita-se que o psicólogo do esporte pode intervir nas várias sub-áreas do esporte, seja no alto rendimento, na recreação ou na educação, adequando-se às necessidades e as especificidades de cada um destes. Para pensar sobre “como” executar esta atuação necessita-se de fundamentação teórica sobre o tema, bem como flexibilidade na ação considerando a complexidade do assunto, que carrega em si uma teia de inter-relações e contextos. A intervenção precisa permear a tríade, de forma que o psicólogo “circule” entre professores, familiares e crianças.

Além de conhecer a tríade é preciso conhecer e entender o contexto da iniciação esportiva, visto que os contextos são locais de desenvolvimento, principalmente na infância. Sendo assim, se faz necessário um amplo conhecimento sobre o local da prática, seja ele uma quadra, um parque, uma piscina, uma pista de atletismo, um ginásio; onde se encontra este local em termos geográficos – próximo a casa da criança, distante; como é este local – conservado, deteriorado, novo; a quem ele pertence, ou seja, é público, privado; no caso de ser uma instituição, quais as características dela - é uma escola, um clube; qual os objetivos propostos pela instituição e pelos profissionais para a iniciação esportiva infantil.  Também é importante considerar se é uma atividade gratuita ou não e os horários em que ela ocorre.

    Todas essas características darão as nuances específicas da iniciação esportiva para cada criança. O psicólogo conhecendo as especificidades do contexto e das relações da tríade pode pensar em formas de intervenção. Pensando em formas de atuação será possível propor intervenções que favoreçam a potencialização e a compreensão das experiências psicológicas, afetivas e sociais (fracassos, derrotas, medo, euforia, ansiedade) pela criança, pela família e pelo profissional da educação física. Para isso, acredita-se ser importante observar os momentos da prática, como a criança lida com experiências psicológicas, afetivas e sociais, bem como qual é a postura do profissional que está com ela e a forma que a família se coloca nessas situações. Acredita-se que auxiliar a criança a lidar com as diversas situações que ocorrem no esporte pode ser útil para outros momentos da sua vida, na medida que oferece instrumentos para familiares e equipe técnica perceberem essas situações, ajudando a criança no seu desenvolvimento.

    O trabalho interdisciplinar perpassa toda a intervenção do psicólogo e torna essa atuação abrangente e complexa. Desta maneira, a intervenção junto às crianças torna-se rica quando o trabalho é realizado juntamente com o professor de educação física, ou seja, utilizando o esporte como instrumento de socialização, de educação e de saúde. Assim, é preciso que seja realizado um planejamento conjunto, psicólogo e professor de educação física, traçando objetivos e estratégias de ação, considerando a importâncias das atividades lúdicas nesse processo.

Neste trabalho conjunto, o psicólogo acompanha o profissional da educação física nas atividades de desenvolvimento de habilidades motoras básicas, auxiliando-o a desenvolver concomitantemente as habilidades sociais, cognitivas e psicológicas, preparando-a física e emocionalmente. Por outro lado acolhe as demandas do professor naquilo que é observado das atitudes da criança frente os desafios da atividade em si e na relação interpessoal, tanto com os colegas como com os professores.

Também é possível pensar em atuações junto aos familiares para se ter conhecimento sobre o momento de desenvolvimento da relação pais/filhos, as expectativas da família em relação à prática esportiva da criança e sobre o passado dos pais em relação à prática esportiva. Esses procedimentos têm por objetivo auxiliar os pais ou outros familiares a identificarem essas expectativas buscando diminuir a ansiedade e frustração decorrentes principalmente de atividades competitivas.

A decisão sobre o “como” atuar irá depender do conhecimento explicitado anteriormente pela tríade, sobre o contexto e sobre a iniciação esportiva. Somente a partir daí será possível pensar, refletir, escolher e criar formas de intervenção, atendendo às demandas do praticante e ampliando o universo da prática profissional do psicólogo do esporte.



5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conforme apontado, o esporte, entendido na sua dimensão lúdica e de cultural corporal de movimento é uma prática fundamental para desenvolvimento infantil. Neste sentido, a iniciação esportiva nas crianças mostra-se relevante para a promoção do desenvolvimento saudável e global.

Para que isso ocorra a capacitação profissional de todos os envolvidos na área torna-se essencial: educadores físicos, psicólogos, nutricionistas, médicos e outros. Estes objetivos serão alcançados desde que todos esses profissionais envolvidos tenham clareza de seu papel no desenvolvimento infantil e possam orientar os pais/responsáveis/familiares sobre a importância da prática e seu contexto para o desenvolvimento das crianças.

Considera-se relevante novos estudos nesta área, focado em ações multi/interdisciplinares, englobando todas as pessoas participantes do processo de iniciação esportiva – criança, familiares, profissionais da saúde e da educação.



6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BECKER JR, B. (2000) Manual de Psicologia do Esporte e do Exercício. Porto Alegre: Nova Prova, 1ª edição.

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Fonte: Revista Electrónica Internacional de la unión Latinoamericana de Entidades de Psicologia 

Importância do esporte na infância

Propensão para doenças futuras diminui


Desde a época dos homens das cavernas o ser humano aprendeu a nadar, correr e caminhar. Exercitava todo o sistema musculoso, esquelético e cardiovascular para obter seus alimentos e exercer suas funções de trabalho como, por exemplo, a caça.
Imagem: Aula de vôlei no Essa é a Nossa Praia
“Com o passar dos anos tudo foi ficando mais fácil, escada rolante, carros, vidros elétricos, controles remotos, sem contar com a crescente urbanização e consequente aumento da violência urbana que aprisionou adultos e crianças dentro de apartamentos, casas pequenas, escolinhas e creches. Fazendo o corpo trabalhar menos” explica o Dr. Tadeu Fernando Fernandes, vice-presidente do Departamento de Cuidados Primários da SPSP (Sociedade de Pediatria de São Paulo).
A bicicleta, a bola de futebol, o carrinho de rolimã, a pipa entre outros foram substituídos por TV, vídeo-game e computador. Frutas, legumes e comida saudável foram substituídas por alimentos prontos e semi prontos ricos em gorduras saturadas e trans. “Consequência imediata ao sedentarismo e má alimentação: obesidade, doenças cardiovasculares (pressão alta, infartos, acidentes vasculares) e metabólicas (diabetes). A solução é retornarmos ao passado com o aumento da atividade física e reeducação alimentar”, afirma Tadeu Fernando Fernandes.
O esporte traz muitos benefícios para a saúde física e mental do ser humano, principalmente da criança em formação. Exercitar o pequeno desde cedo é fundamental. O bebê se forma dentro de uma bolsa de água no útero materno, tendo contato de nove meses com a água. “Desde o nascimento a criança já pode praticar esportes, começando pela natação. Pelo contato no útero da mãe, o bebê, ainda em formação, tem uma relação muito boa com a água”, afirma Tadeu Fernandes.
A mídia televisiva e os meios eletrônicos muitas vezes impedem os pequenos de querer sair de casa para realizar alguma atividade física. É importante nessa fase os pais não obrigarem a criança a fazer algum esporte, e sim estimular os filhos sem cobrar resultados. “É uma difícil missão. Os pais precisam olhar as crianças como um ser em nível de maturação, de descobrimento e não como um atleta profissional em que o objetivo são resultados a curto prazo”, complementa Fernandes.
O esporte abre a porta para a sociabilidade, contribuindo para a educação. Disciplinas como judô, karatê e balé são ótimas opções, pois além deles se exercitarem, aprendem a respeitar o próximo, se integram mais aos grupos de amizades além de trabalhar o condicionamento físico, ajudando as crianças a não terem problemas com a obesidade e nem doenças no futuro.
Incentivar de maneira saudável as crianças ao esporte com certeza trará muitos benefícios para sua vida adulta. Aliar a atividade física com a educação é a melhor maneira de contribuir para a melhor formação mental e física dos pequenos.


Fonte: Bolsa de Mulher

Esporte para crianças

A natação para bebês é cada vez mais procurada pelos pais, existindo inúmeras vantagens
para os pequenos que a praticam: desenvolvimento neuromotor, fortificação da musculatura, aumento da capacidade cardíaca e muitas outras.
Foto: Alunos do Projeto Esporte e Educação: Essa é a Nossa Praia
Para os professores de natação, a importância maior é estimular as crianças a praticarem esportes. O mergulho é um dos progressos na aula de natação, quando a criança fica mais "ágil e esperta".
A primeira preocupação que os especialistas têm quando se fala em natação para bebês é a desmistificação da atividade. O bebê não irá nadar com braçadas corretas e técnicas perfeitas, afirmam catedráticos da Escola de Educação Física da Universidade de São Paulo. Nessa faixa etária, nadar significa simplesmente deslocar-se no meio líquido, segundo a USP.
As primeiras noções do estilo crawl, que consiste em braçadas alternadas, batimento de pernas e giro lateral da cabeça para a respiração, só serão repassadas para crianças com idade superior a cinco anos.
Um outro aspecto importante é a sociabilização dos pais. A natação ajuda mãe e filho, por exemplo, a fazer amizade com o resto da "turma". Ao fazer matrícula em escola de natação, os pais devem tomar algumas precauções, como averiguar se a água da piscina está limpa e cristalina, apresentando um PH de 7.4 a 7.6, nível de cloro 2PPM e temperatura média de 32 graus.

As armadilhas do esportes na infância
A atividade física coordenada é muito importante para o desenvolvimento mental e físico das crianças. A educação física no Brasil tem grande diversidade em modalidades esportivas, como disciplinas acadêmicas em seus currículos, convergindo em estudos que focalizam a prática de esportes na escola e em outros locais.
Contudo, a prática intensiva de esportes na infância, com o objetivo de criar futuros campeões certamente é nocivo, declaram os profissionais no assunto. Esse método anseia resultados imediatos, com as performances esportivas condizentes a índices estabelecidos a partir de referências alheias, sem que fossem feitas ressalvas sobre a compatibilidade com a infância ou a pré-adolescência.
treinamento intensivo de esportes na infância precoce se caracteriza por sessões (de 6 a 7 horas semanais até 3 ou 4 horas diárias) e intensidade do trabalho exigido. Nele, não são levados em conta as particularidades próprias, orgânicas, suas fases de desenvolvimento e a psicologia da criança.
As crianças necessitam de tempo para crescer, aprender e se desenvolver. Elas não pensam ou aprendem da mesma maneira que os adultos, e por isso precisam ser educadas de maneira diferente do que tem sido em muitos casos. 

Além de danos físicos e psíquicos, ocorre hoje o que se chama de Síndrome de Saturação Esportiva. Indivíduos que se iniciaram muito cedo na prática esportiva especializada são acometidos por esta síndrome, caracterizada por certa apatia a até aversão pelo esporte. São aqueles campeões mirins ou infantis, em diversas modalidades esportivas, e que despontaram como futuros campeões, mas que desistiram das competições por exclusiva má orientação escolar, técnica, médica e familiar.
A educação física precisa rever esses valores. As afirmações sobre a competição ou espírito competitivo "como um componente inato do homem" e que "deve ser incentivado desde a infância através do esporte", não resistem a uma análise mais profunda.
Faz-se necessária uma reformulação de ideias e conceitos, sondar a criança em seu desenvolvimento e assim aprender a compreendê-la um pouco melhor e verificar a possibilidade de esportes na infância. 
O Instituto Americano de Stress (AIS) revela que oito de cada dez visitas ao pediatra são decorrentes do estresse. No Brasil estima-se que afete cerca de dois terços da população infantil.
Desta forma, os pais precisam estar atentos aos acontecimentos de seus filhos, não os sobrecarregando de atividades (mesmo as esportivas) e tentar ajudá-los da melhor maneira possível. Crianças orientadas a lidar com situações estressantes de forma eficiente, criam antídotos para controlar as pressões sem reagir fisiológica e emocionalmente.
Ensinar aos pimpolhos a prática da respiração abdominal, assim como o relaxamento muscular, visualização (exercício de visualizar algo bom), e em casos mais graves, um tratamento como o biofeedback, técnica preventiva que pode ajudar a controlar todas as reações emocionais e fisiológicas, são algumas ações saudáveis que podem ser conjugadas às atividades esportivas (pós-exercícios), por exemplo.
Segundo especialistas, o desequilíbrio faz com que a criança desenvolva sintomas, como enxaqueca, diarreia, ansiedade, angústia e até depressão. Outra atitude salutar é mostrar a importância de ser otimista e praticar exercícios físicos, como já exposto, mas com a devida moderação.




Fonte: Alô Bebê

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Atividade Física na Infância

O esporte traz muitos benefícios para a saúde física e mental da criança. Especialistas dizem, que quanto mais cedo a criança cria o hábito pelo esporte, menos propensão ela têm à doenças. Com cinco ou seis meses, assim que conseguem movimentar bem os braços e as pernas, já podem começar o seu envolvimento com o mundo esportivo. Nessa fase o esporte indicado é a natação que estimula o desenvolvimento neuromotor, fortificação da
Imagem: Internet 

musculatura, aumento da capacidade cardíaca e também ajuda com os problemas respiratórios.
 
Além de prevenir doenças o esporte contribui no desenvolvimento infantil e também no relacionamento saudável com outras crianças.
 
É importante manter o esporte como forma de ocupação e desenvolvimento da criança. Se ela vai ou não se destacar na sua modalidade só o tempo e as conseqüências podem dizer. Se os treinos não servirem para que ela alcance grandes performances, ao menos podem torná-la mais saudável física e mentalmente, e menos suscetível ao mundo das drogas, entre outros problemas sociais.
 
Fazer exercícios de forma divertida é o melhor caminho, inclusive para trabalhar a auto estima da criança, a prática de esporte o ajudará a ter mais confiança em si mesma, a relacionar-se melhor com os demais, inclusive a superar algumas enfermidades como a asma.
 
O esporte abre a porta para a sociabilidade, contribuindo para a educação, para o convívio e desenvolve a aprendizagens que serão úteis para o resto de sua vida, começando a aprender a lidar com o próximo, seja ele o parceiro, o adversário, o professor ou o técnico.
 
Aos pais, é importante lembrar, “nada de cobranças”! Os filhos devem olhar para o esporte como um prazer, lazer e não como uma competição ou obrigação, para que nenhum limite seja ultrapassado. Tudo à seu tempo.
  




Fonte: tracka&field

Os benefícios do esporte para a criança e o adolescente


Imagem: Internet

A prática de esportes é fundamental para a saúde e bem-estar do ser humano. Ela ensina valores fundamentais, como a autoconfiança, a inclusão social, o trabalho em equipe e o respeito pelas outras pessoas. Na infância e na adolescência, essas atividades ganham uma importância maior para o desenvolvimento de meninos e meninas. Por isso, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) determina que é responsabilidade do poder público oferecer áreas de esporte e lazer para esse público.

Especialistas alertam que o esporte na infância e na adolescência deve ser, antes de tudo, um prazer, uma brincadeira. Deve ser o momento de encontrar os amigos, se divertir e, junto com isso, aprender uma modalidade esportiva e desenvolver habilidades físicas.

No momento em que a criança inicia a prática esportiva, ela obtém também benefícios sociais e psicológicos. Por meio do esporte, meninos e meninas aprendem tanto a reagir em diferentes situações, como também a se tornarem mais atentos aos processos de seu comportamento.

Além disso, há ainda vantagens físicas como a prevenção de doenças cardíacas, diabetes, obesidade ou outros males crônicos que aparecem na idade adulta. Apesar de o esporte trazer grandes benefícios para crianças e adolescentes, ele tem que ser orientado de uma forma correta e saudável para que não haja uma obsessão pela competição.

O Governo Federal realiza uma série de projetos de incentivo ao esporte voltados ao público infanto-juvenil. A parceria firmada entre o Ministério do Esporte e o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) possibilita a captação de recursos junto a pessoas físicas e jurídicas, as quais poderão direcionar suas doações a projetos esportivos sociais.

Um programa de estímulo ao esporte que tem dado resultado é o Programa Esporte e Lazer da Cidade, implantado pela Secretaria Nacional de Desenvolvimento do Esporte e do Lazer (SNDEL), do Ministério do Esporte. A iniciativa pretende suprir a falta de políticas públicas e sociais que atendam às necessidades e demandas da população por esporte recreativo e lazer.

O programa atua em Belém (PA) desde outubro de 2005 e oferece diversas oficinas para cerca de 2.500 pessoas nas áreas de esporte e lazer como brinquedoteca, capoeira e dança. A meta é atender 5.700 até setembro deste ano.

O que diz a lei

Os artigos 4°, 16° e 71° do ECA dizem que crianças e adolescentes têm direito à informação, à cultura, ao lazer, à educação e à prática de esportes.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, lei 9.394, determina que os conteúdos da educação básica deverão observar a promoção do desporto educacional e apoio às práticas desportivas não-formais (artigo 27, inciso IV).

Encaminhamentos

1. O seu município possui políticas públicas de incentivo ao esporte para crianças e adolescentes? 2. Se houver, quais são e como está o funcionamento dessas políticas? 3. Se não, por que elas não são oferecidas? 4. Quanto é investido em políticas públicas esportivas anualmente em seu município? 5. Quantos meninos e meninas já foram atendidos por projetos esportivos? Quais os resultados obtidos?

Mais informações

Para saber mais a respeito dos benefícios do esporte na infância e adolescência visite o endereço eletrônico http://www.cdof.com.br/crianca.htm, que contém diversos artigos sobre o tema.

Para ter mais informações sobre os projetos de incentivo ao esporte do Governo Federal, acesse o site do Ministério do Esporte http://portal.esporte.gov.br/

Com quem falar

Procure a secretaria de esporte e lazer do seu município e veja quais as políticas públicas de incentivo ao esporte para público infanto-juvenil.

Entre em contato com médicos, psicólogos, fisioterapeutas e pedagogos para saber os benefícios que a prática de esporte pode propiciar a crianças e adolescentes.

Fale também com meninos e meninas atendidos por projetos esportivos e pergunte sobre como eles ingressaram no projeto e se essas iniciativas estão contribuindo com a vida deles.

Dicas

Verifique se seu município possui espaços de esporte e lazer para as crianças e adolescentes. Se houver, analise qual a condição desses lugares. Observe ainda se oferecerem a estrutura necessária para a prática de esportes. Verifique também se comunidades e escolas promovem eventos de estímulo às atividades esportivas.



Fonte: Unama - Universidade da Amazônia 

Como incentivar as crianças à prática esportiva infantil

Além de todos os benefícios para a saúde que a prática esportiva traz, incentivar as crianças a fazerem uma atividade física pode ser também uma ótima oportunidade para aumentar a quantidade e qualidade dos momentos em família. 
Imagem: Internet


Para que a prática de esportes se instale na rotina de seu pequeno, é preciso que algumas coisas acompanhem a mudança, como, por exemplo, a participação dos pais e a alteração da dieta alimentar.

Saiba tudo sobre a prática esportiva infantil e como incentivar seu pequeno

Acompanhe seu filho

A prática esportiva é uma ótima ocasião para a interação entre pais e filhos, inclusive porque ela provoca naturalmente a liberação de hormônios como a endorfina, responsável pela promoção do bem-estar. Com os ânimos calmos, só há vantagens em se compartilhar esse momento. Jogue e faça brincadeiras com seu filho frequentemente, exercitando os músculos e o raciocínio. Ensine e aprenda com seu pequeno a ganhar e a perder, a trabalhar em equipe, a conviver. 

Os jogos de tabuleiro são um ótimo artifício para isso. Escolha um do gosto e faixa etária de seu filho, mesmo que seja apenas para curtir o momento em família. Faça disso uma rotina e selecione também um ou mais esportes (dependendo da idade do pequeno) para ele praticar, sempre respeitando seus limites. Comece a treinar com ele e mostre que você se importa com aquele momento. Antes de dar início à atividade, porém, leve seu filho a uma consulta médica para conhecer suas restrições, pois um problema respiratório pode exigir que se prefiram algumas práticas a outras.

Faça mudanças importantes na rotina

“A atividade física deve trazer com ela um conjunto de coisas, não é só praticar esportes sozinho. A alimentação tem que mudar, todo o hábito da família tem que mudar para acompanhar esse processo. O esporte é uma questão de saúde e pode deixar toda a família mais saudável”, diz a psicóloga Beatriz Acampora. De fato, a maioria dos esportes traz consigo uma filosofia de vida, que transmite disciplina e complementa a educação e personalidade da criança, permitindo que ela se desenvolva plenamente. Adaptar a rotina do pequeno e fazer alterações em sua alimentação são atos que acompanham esse processo e vêm naturalmente quando existe o apoio mútuo entre pais e filhos. Então, para ajudar seu pequeno, altere você também sua dieta alimentar.

Não pressione demais

O incentivo e acompanhamento dos pais são fundamentais na hora de estimular o pequeno à atividade física, mas deve-se tomar cuidado com a pressão exercida sobre ele. Crianças muito cobradas – em qualquer sentido – ficam sobrecarregadas e podem se tornar desnutridas, estressadas e começarem a ter dificuldades para dormir. Isso influi em seu bem-estar, saúde e até no rendimento escolar. Basta pensar que uma noite mal dormida pode se refletir em uma soneca na sala de aula.

Para uma noite de sono tranquila, deixe seu filho praticar esportes até, no máximo, as seis ou sete horas da noite. É importante que a atividade física termine até três horas antes do pequeno se deitar, para que dê tempo de baixarem as doses dos hormônios descarregados no sangue na hora do esporte (adrenalina, endorfina, etc.).

Cobre menos de seu filho e seja menos exigente com sua frequência e desempenho nos esportes. Se um dia ele não estiver disposto a ir ao treino, deixe que ele falte. Lembre-se que o momento deve ser, acima de tudo, prazeroso para o pequeno.

Cuidado com a competitividade

Se reparar que seu filho está muito fixado em vencer, é hora de intervir. “Querer melhorar é normal, mas tem que ter um freio nisso, senão a criança começará a ficar estressada”, diz a psicóloga Beatriz Acampora. O desejo intenso de ganhar deve ser observado de perto, pois provavelmente tem um fundo emocional. Muitas vezes, a vontade de provar que é bom o suficiente para chamar a atenção dos pais está por trás de tal fissura. Se necessário, procure a ajuda de um profissional.

A criança deve aprender a lidar com a competitividade de uma forma saudável, para não sofrer frustrações que poderão influir em toda sua vida futura. Converse com ela, dizendo que a prática esportiva é um momento para ela e dela, e que o desempenho entrará em foco mais tarde - e, mesmo assim, com restrições - quando ela for adolescente. Na infância, o caráter da atividade física deve ser lúdico, de lazer, constituindo um momento agradável e prazeroso, acima de tudo.

A escolha do esporte

Na hora de escolher a modalidade esportiva, tome também certo cuidado. É comum nessa hora os pais transferirem suas frustrações aos filhos - muitas vezes sem que se deem conta disso - ou matriculá-los em esportes que pretensamente irão melhor se adaptar a eles, como o basquete para crianças altas. Deixe que seu filho faça a escolha dele, experimente-a e mude depois, se for o caso. Tente interferir o menos possível nesse processo. “É importante a criança fazer o que ela gosta, e não o gosto do pai. A atividade física tem que ser um momento de lazer natural e não uma obrigação, que só gerará frustração em algum momento do desenvolvimento futuro”, afirma Beatriz Acampora.

Passe mais tempo de qualidade com o seu filho, se aproxime dele e ainda garanta uma saúde melhor para vocês dois! Em breve daremos mais dicas de atividades físicas que podem ser praticadas juntas, fique de olho!





Fonte: Site Educação Física 

Novas perspectivas para o estudo da infância

Pesquisadores se esforçam para entender a infância a partir da ideia de que ela é uma construção histórica e social, e não um conceito ligado à imaturidade biológica

Imagem: Internet

Em uma das passagens de A Evolução Psicológica da Criança, publicado originalmente em 1941 pelo médico, psicólogo e pesquisador francês Henri Wallon, encontramos algumas ponderações provocativas e extremamente pertinentes para o pesquisador contemporâneo, dentre elas a que foi escolhida para ser utilizada como epígrafe deste texto de apresentação. Em outra passagem, de modo também muito procedente, Wallon pergunta: "Para a criança, só é possível viver sua infância, conhecê-la compete ao adulto. Contudo, o que irá predominar nesse conhecimento, o ponto de vista do adulto ou da criança?". É interessante acompanhar sua resposta para a questão: "Rigorosamente falando, não existe observação que seja um decalque exato e completo da realidade. [...] Não há observação sem escolha ou sem alguma relação, implícita ou não. A escolha é dirigida pelas relações que possam existir entre o objeto ou o acontecimento e nossa expectativa, em outras palavras, nosso desejo, nossa hipótese ou mesmo nossos simples hábitos mentais [...]. A grande dificuldade da observação pura como instrumento de conhecimento é que em geral utilizamos um quadro de referências sem sabê-lo, uma vez que seu emprego é impensado, instintivo e indispensável [...]. Caso se trate de observação, a formulação que damos dos fatos em geral corresponde a nossas relações mais subjetivas com a realidade, às noções práticas que usamos para nós mesmos na vida diária. Por isso, é muito difícil observar a criança sem atribuir-lhe algo de nossos sentimentos ou de nossas intenções. Um movimento não é um movimento, mas o que a nosso ver ele exprime. E, a menos que se tenha muita prática, é a suposta significação que registramos, omitindo em maior ou menor medida a indicação do próprio gesto. Todo esforço de conhecimento e de interpretação científica sempre consistiu em substituir o que é referência instintiva ou egocêntrica por um outro quadro cujos termos sejam objetivamente definidos [...] Portanto, é de primeira importância definir claramente, para todo objeto de observação, qual é o quadro de referências que corresponde à finalidade do estudo".
Os trabalhos apresentados neste fascículo traduzem, de certo modo, o esforço de um grupo de pesquisadores que orientam suas ações e investigações na perspectiva apontada por Wallon (mesmo que não o saibam). Por essa razão, quando organizei este volume com o propósito de apresentar, por exemplo, as proposições dos pesquisadores da hoje chamada Sociologia da Infância, imediatamente lembrei-me das colocações pertinentes feitas por Henri Wallon há décadas.

Objeto de análiseComo explica Anete Abramowicz, em um dos textos presentes nesta revista, a Sociologia da Infância, movimento surgido na Europa e em alguns países de língua inglesa a partir de 1980, busca a compreensão da perspectiva da criança sobre o mundo, já que, geralmente, "do ponto de vista da micropolítica, do espaço local onde se relacionam e vivem as crianças, elas não dizem por elas mesmas, ou seja, são os pais, as professoras, as escolas, os médicos que falam sobre a criança, e às vezes, falam pelas crianças. Este fato indica que na ordem discursiva existem as falas que são consideradas e as falas que não são levadas em conta, como é o caso da fala das crianças e a dos loucos, por exemplo. Em geral, quando as crianças falam, dizemos que 'é coisa de criança', que não é algo sério, ou verdadeiro, ou que não é uma fala que faça sentido. E do ponto de vista da macropolítica, as crianças não têm nenhuma representação política e não podem se representar, ou seja, como disse Qvortrup, não são porta-vozes de si próprias".
O artigo que abre a publicação é consagrado ao português Manuel Jacinto Sarmento, professor titular do Instituto de Estudos da Criança (IEC) e da Universidade do Minho em Portugal. Seus trabalhos são apresentados por Ana Cristina Coll Delgado, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas (RS). Além de enaltecer o importante papel divulgador das ideias inovadoras dos estudiosos da Sociologia da Infância junto a pesquisadores brasileiros e portugueses, Ana Cristina destaca as contribuições decorrentes de suas investidas com o propósito de estudar a infância numa perspectiva interdisciplinar, bem como os frutos de seu engajamento e luta no interior da própria Sociologia: "Encontramos na trajetória profissional de Manuel Sarmento um movimento contra-hegemônico de resistência frente às desigualdades geracionais, de classe, de gênero e de etnia que enfrentam as crianças em todos os continentes do mundo."(...)
Com Manuel Jacinto Sarmento compreendemos que as crianças produzem saberes e conhecimentos sobre as experiências cotidianas das quais participam. Se pensarmos que a curiosidade, o abrir-se para experimentar o mundo, o desejo de viver e conhecer são atitudes importantes na construção de projetos de investigação, podemos inferir que as crianças também são pesquisadoras e, portanto, são competentes para a criação de outras relações sociais no mundo e nas instituições
que frequentam".
O segundo texto analisa a obra de Alan Prout, professor de Sociologia e Estudos da Infância, no Institute of Education de uma das principais universidades do Reino Unido, University of Warwick. Seus trabalhos estão relacionados ao estudo social da infância, a participação das crianças, as relações das crianças com as tecnologias, o cotidiano infantil e as relações entre educação e saúde. O artigo, elaborado por Ângela Meyer Borba e Jader Janer Moreira Lopes, professores da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, examina o quanto a obra de Prout foi seminal na construção de um novo paradigma para os estudos sobre a infância, causando significativo impacto no cenário científico. O artigo explora também suas contribuições mais recentes, fruto de uma nova fase de pesquisa, potencialmente instigantes para alargar os horizontes da Sociologia da Infância e sinalizar novas necessidades de pesquisa, relacionadas especialmente ao caráter interdisciplinar,  ao diálogo entre diferentes áreas do saber: "Prout reconhece a necessidade de se aprofundar, de se intensificar esse encontro, de se ampliar cada vez mais o diálogo entre o que se tem de base comum e de diferenças. Tal situação torna-se necessária à medida que reconhecemos a complexidade da infância, advinda de seu caráter híbrido, da heterogeneidade da vida social, das redes e mediações de elementos que entram nessa composição, sem dicotomizar pessoas e coisas, natureza e cultura, redes sólidas, frágeis, parciais, perecíveis, que se encontram e desencontram. Nessa composição, a mobilidade e o fluxo que configuram o mundo contemporâneo devem ser considerados: fluxos de pessoas, mercadorias, imagens, valores, os quais atravessam fronteiras, fincam-se em diferentes territórios, criam lugares para a infância, lugares não estáveis, mas em constante processo, como trajetórias que se constituem".
Perspectiva comparativaOs instigantes trabalhos do sociólogo norte-americano William Arnold Corsaro, docente da Universidade de Indiana, Bloomington, apresentados no terceiro texto deste fascículo, são explorados pelas professoras Fernanda Müller, da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), e por Ana Maria Almeida Carvalho, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). No ensaio, as autoras apresentam suas pesquisas sobre as crianças na sociedade contemporânea em perspectiva comparativa, com base em métodos etnográficos, e principalmente esclarecem as razões de Corsaro ser considerado um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da Sociologia da Infância: "Ao questionar concepções clássicas sobre os processos de socialização, substituindo a visão da criança como receptora passiva pela da criança coconstrutora de sua inserção na sociedade e na cultura; ao sustentar que a compreensão sobre a infância deve ser construída com a criança, e não somente a respeito dela; ao identificar processos sociais complexos e dignos de estudo no mundo da criança, superando assim o foco no desenvolvimento individual em termos de seus desenlaces no futuro, Corsaro contribui para a consolidação da Sociologia da Infância e para a reflexão sobre caminhos alternativos para práticas pedagógicas e políticas públicas de Educação Infantil" .
Anete Abramowicz, professora da Universidade Federal de São Carlos, apresenta os trabalhos da francesa Régine Sirota, nome de destaque da Sociologia da Infância Francesa, que é docente e pesquisadora na Universidade Paris Descartes. Atualmente, além de diretora do Departamento de Ciências da Educação e membro efetivo do Centre de Recherche sur Les Liens Sociaux (CERLIS), em Paris, ela é também membro de comitê internacional de inúmeras revistas. O texto traça um panorama do programa de pesquisa de Régine Sirota traduzido em seu esforço em desenvolver investigações sobre temas ainda pouco explorados (como o estudo das festas de aniversário das crianças entendidas como um processo de socialização e civilidade) e em sua dedicação para constituir o campo da Sociologia da Infância. Com tal propósito Anete apresenta uma síntese de alguns traços importantes reunidos por Sirota que ajudam a definir as características da Sociologia da Infância de língua inglesa e francesa: "Primeiro, a infância é uma construção social. Ou seja, para entender as crianças é preciso analisar de que maneira a infância é vista pela sociedade em questão. A infância não é um fenômeno ligado à imaturidade biológica, não é mais um elemento natural ou universal dos grupos humanos, é histórico e social. Essa desnaturalização da definição, sem negar a imaturidade biológica, enfatiza a variabilidade dos modos de construção da infância em todas as dimensões históricas e reintroduz o objeto infância como um objeto ordinário de análise sociológica. Segundo, a infância é considerada não simplesmente como um momento precursor, mas como um componente da cultura e da sociedade. Terceiro, a infância se situa como uma das idades da vida que necessitam de exploração específica, como a juventude ou a velhice, já que é uma forma estrutural que jamais desaparece, não obstante seus membros mudem constantemente e, portanto, a forma evolua historicamente. Quarto, as crianças devem ser consideradas como atores em sentido pleno e não simplesmente como seres em devir. Quinto, as crianças são ao mesmo tempo produtos e atores dos processos sociais. Trata-se de inverter a proposição clássica, não de discutir sobre o que produzem a escola, a família ou o Estado, mas de indagar sobre o que a criança cria na intersecção de suas instâncias de socialização. Isto quer dizer que a criança é ativa em seu processo de socialização. E, por último, a infância é uma variável da análise sociológica que se deve considerar em sentido pleno, articulando-a a variáveis clássicas como a classe social, o gênero, ou o pertencimento étnico". 
MetodologiasO quinto texto, elaborado por Maria Letícia Barros Pedroso Nascimento, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feusp), analisa a profícua obra do dinamarquês Jens Qvortrup, professor emérito da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU), em Trondheim, Noruega, considerado um dos fundadores e principais teóricos da Sociologia da Infância. O artigo possibilita entender não somente os traços da trajetória profissional e do programa de pesquisa de Qvortrup, como também os pressupostos teóricos e metodológicos que sustentam as formulações e conceitos vigentes nesse campo de estudo. Ao analisar as principais teses elaboradas pelo autor, Letícia conclui que elas: "trazem os elementos necessários para a compreensão das crianças como sujeitos sociais, capazes de produzir mudanças nos sistemas nos quais estão inseridas, ou seja, as forças políticas, sociais e econômicas influenciam suas vidas ao mesmo tempo que as crianças influenciam o cenário social, político e cultural".
O sexto artigo é de autoria de Tizuko Morchida Kishimoto, professora da Faculdade de Educação de São Paulo. Ele trata da obra do pioneiro pesquisador francês Gilles Brougère, estudioso que apresenta uma reflexão muito interessante  sobre o tema do brinquedo e da produção cultural  e também discute a  atual  necessidade de encontrar alternativas pedagógicas que coloquem no mesmo espaço as formas lúdicas e educativas, com a devida clareza sobre as características de cada uma. Nas palavras de Tizuko: "Compreender o significado do brincar na produção cultural infantil e nas interfaces entre o brincar e o educar será o desafio enfrentado neste artigo com o apoio de Gilles Brougère, renomado pesquisador francês que utiliza as Ciências da Educação para esclarecer tais questões. O texto propõe apresentar o pesquisador, discutir suas ideias e pesquisas sobre as relações entre o brinquedo e as culturas da infância e suas implicações na educação.
Importância do brincarO foco de suas pesquisas incide sobre temas como o brinquedo, a cultura infantil de massa, as relações entre o jogo (abordagens sociológicas e pedagógicas), a educação pré-escolar comparada e a educação informal.
O sétimo texto aborda as instigantes ideias do revolucionário educador italiano Loris Malaguzzi, um autêntico representante da força criativa das experiências pedagógicas das escolas de Reggio Emilia para a primeira infância. O artigo, escrito pela professora  Ana Lúcia Goulart de Faria da Faculdade de Educação da Unicamp e por Adriana Alves Silva, doutoranda na mesma instituição, apresenta, de modo envolvente e apaixonado, traços presentes na trajetória do pesquisador, marcado pelas diversas relações afetivas e políticas com diferentes atores sociais do complexo campo da educação (inclusive relatam sua amizade com Paulo Freire) e, principalmente, as bases  e princípios em que se assentam  a pedagogia malaguzziana. Na avaliação das autoras, em sua trajetória:  "ele manteve um profícuo diálogo com a política em suas mais diversas facetas, buscando a participação popular; enfrentando os desafios do trabalho coletivo, em especial incentivando a importância da pesquisa, do estudo, da exigência rigorosa e constante na formação de professores e professoras; e principalmente inovando na consciência coletiva das cem linguagens das crianças através de um projeto estético que revolucionou toda uma experiência histórica em educação" (...)
Experiência italianaA partir da década de 1970, é intensificado o trabalho de continuidade da participação das famílias na administração das escolas de Reggio Emilia como um valor imprescindível, tendo como base o protagonismo das crianças e a formação exigente e constante das professoras. Dessa forma tornavam-se possíveis os estudos e as pesquisas acerca da experiência local, que ficou conhecida em toda a Itália, consolidando uma pedagogia da escuta, das relações e das diferenças que estava sendo construída no norte italiano.
O oitavo texto, elaborado pela professora Flávia Schilling, da Faculdade de Educação da USP, apresenta uma introdução ao pensamento do autor espanhol Jorge Larrosa Bondia, professor titular de Teoria e História da Educação na Universidade de Barcelona. Seus textos, ainda pouco conhecidos entre aqueles que estudam a primeira infância, costumam ter grande receptividade em seu pais de origem, no Brasil e na América Latina de modo geral. Eis a proposta do artigo de acordo com Flávia: "Seu trabalho com a literatura como lugar do pensamento, da experiência na prática pedagógica, suas leituras sobre o dispositivo pedagógico, sobre a diferença, mostram um autor inquieto, que busca, como ele próprio diz, contradizer-se. Ou melhor, dizer-se de outras maneiras, a partir de outras perguntas que emergem, pois vivendo se aprende e o que se aprende é fazer maiores perguntas.
Neste pequeno texto introdutório, apresentaremos sua proposta de um método, o ensaio, como um lugar possível para pensar o presente. A seguir, continuando seu caminho, traremos uma apresentação dos dispositivos pedagógicos, das linhas de força que se reiteram nas práticas educacionais. Concluiremos com algumas reflexões sobre a literatura e o pensamento, a liberdade e o riso. Este texto terminará com um convite à leitura dos trabalhos e ensaios de Jorge Larrosa e da literatura".
O penúltimo texto que compõe esta publicação foi elaborado por Tatiana Noronha de Souza, professora da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Jaboticabal), e Maria Clotilde Rossetti Ferreira, professora da Universidade de São Paulo (Ribeirão Preto). Ele analisa traços da vida e obra da prestigiada  italiana Tullia Musatti, que é pesquisadora no Instituto de Psicologia do Conselho Nacional de Pesquisa (CNR), em Roma, orientadora de teses de doutorado em Psicologia da Interação, Comunicação e Socialização, na Universidade La Sapienza, em Roma, e professora nos cursos de mestrado voltados para coordenadores pedagógicos de instituições de educação infantil, na Universidade de Milão e na de Florença. Além de realizar estudos sobre temas relevantes relacionados  à qualidade de vida das crianças nas instituições educativas (dentre eles:  interações, organização dos espaços, avaliação de instituições, sistemas educacionais e políticas para a infância), é uma profissional engajada, que  atua politicamente em diversos espaços, em defesa da educação infantil e realiza  consultorias em sistemas de creches e pré-escolas de várias cidades italianas. Num texto generoso em informações e rico em detalhes, as autoras avaliam a relevância e originalidade dos trabalhos de Tullia:"Podemos, então, observar que Tullia iniciou seu trabalho de pesquisadora com questões pontuais da Educação Infantil, tais como desenvolvimento e interação de crianças e formação de professores e encaminhou suas pesquisas para questões globais do atendimento infantil, tais como as políticas e avaliação de sistemas de educação infantil. Verificamos em suas pesquisas que trata da criança em sua cultura, e não uma criança "pinçada" descontextualizada do seu meio. Trata-se de uma criança em relação ao ambiente em que se encontra, que nele se desenvolve, e a preocupação com a qualidade das experiências que lhe são propostas passa a ser de fundamental importância.
Sua trajetória nos mostra um grande engajamento na melhoria da qualidade de vida das crianças, e indica que devemos olhar para questões mais amplas, além daquelas que ocorrem dentro das instituições. Será somente a atuação em todas as dimensões e o olhar para a criança em sua completude, que poderão levar à melhoria da qualidade de vida da infância".
A criança filósofaEncerra o volume o inspirado artigo escrito por Walter Omar Kohan,  professor  de filosofia da educação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj),  sobre o rico legado de Matthew Lipman. O filósofo e educador norte-americano, recém-falecido, ficou conhecido em várias partes do mundo por ter idealizado um programa de filosofia para crianças. Seu propósito era auxiliar as crianças a pensar, a estabelecer relações, fazer críticas, esclarecer conceitos, discutir as razões, explorar pontos de vista alternativos, identificar os pressupostos, consequências, ou inferências que se seguem do que elas pensam. São bastante elucidativas as reflexões realizadas por Walter sobre os esforços de Lipman:
"Nas últimas páginas da sua autobiografia, Matthew Lipman pergunta se sua empreitada teve êxito. Ele não tem dúvida em responder afirmativamente. Sustenta que, uma vez instalada nos currículos do Ensino Fundamental, a filosofia ali permanecerá por muito tempo; porque, embora possam surgir outros programas de filosofia diferentes do seu, outras perspectivas filosóficas além da sua, ele considera que nenhuma disciplina pode fazer o que a filosofia faz:  ajudar as crianças a pensar de forma crítica, criativa e cuidadosa sobre si mesmas e o mundo que as rodeia. Este é o legado de Matthew Lipman e da sua fundação, sólida e aberta ao mesmo tempo, e que excede amplamente a forma específica que ele desenhou e pela qual lutou incansavelmente para ver a filosofia praticada nas escolas.
Como uma criança, Matthew Lipman perturbou o mundo da filosofia e da educação. Fez o que não se esperava dele. Foi um infante no tão adulto mundo da academia filosófica. Por sobre todas as coisas, foi um educador sério e comprometido que, para além de seu programa, educou na filosofia e na infância, abriu um mundo nelas para os que tivemos a alegria de conhecê-lo. Seguramente, depois que ele se meteu em nossas vidas, já nada foi da mesma maneira. O mundo se tornou, em certo sentido, mais infantil e, em outro sentido, mais filosófico. E tudo por tentar levar adiante um contrassenso. Como uma criança irreverente...".
Foi um bom desafio organizar esta revista. É com prazer que apresento todo este rico material ao público leitor, com a esperança de que ele permita a educadores e pesquisadores conhecer não só a pluralidade de tendências, como também algumas das principais mudanças de rumos que marcam os estudos relacionados à infância nas últimas décadas. Quem sabe isso nos ajude a ampliar nossos olhares para as crianças, sempre tão encantadoras e surpreendentes.
Referência bibliográficaWallon, H. A Evolução Psicológica da Criança. Trad. Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, [1941] 2007.

Teresa Cristina Rego é professora livre-docente da Faculdade de Educação da USP e coeditora da Revista Educação e Pesquisa (Feusp). É mestre e doutora em Educação pela USP e pós-Doutora pela Universidad Autónoma de Madrid. É autora, entre outros, de Vygotsky: uma Perspectiva Histórico Cultural da Educação (Vozes, 22ª. ed., 2011) e Memórias de Escola: Cultura Escolar e Constituição de Singularidades (Vozes, 2003). Pela editora Segmento coordenou as coleções Biblioteca do Professor (2008), Pedagogia Contemporânea (2009), História da Pedagogia (2010) e Educadores Brasileiros (2009 e 2010).





Fonte: Revista Educação